O avanço da violência nas manifestações, a deterioração do poder de compra e as diferentes respostas políticas dentro da União Europeia revelam uma crise que vai muito além das ruas.
23 de outubro de 2026 | Análise internacional
A Europa atravessa um momento particularmente delicado de sua história recente. O continente que durante décadas representou estabilidade institucional, prosperidade econômica e segurança social enfrenta hoje uma combinação preocupante de dificuldades econômicas, tensões geopolíticas, fragmentação política e crescente contestação à autoridade do Estado.
As imagens que chegam de Paris, Milão, Bruxelas e outras cidades europeias revelam uma realidade que merece uma reflexão mais profunda. Não se trata apenas de manifestações contra o aumento do custo de vida. Trata-se também de uma crise de confiança nas instituições, acompanhada, em determinados episódios, por uma violência que parece ter perdido qualquer relação com as reivindicações que originalmente levaram milhares de cidadãos às ruas.


Na França, os acontecimentos de 17 de outubro atingiram proporções alarmantes. Entre 550 mil e 800 mil pessoas participaram das manifestações, segundo estimativas divulgadas pela imprensa. Aproximadamente 1.200 pessoas foram detidas, enquanto cerca de 150 policiais e integrantes das forças de segurança ficaram feridos. Nos dias seguintes, o número de estabelecimentos comerciais atingidos por depredações e saques chegou a pelo menos 3 mil.


Esses números exigem uma distinção fundamental. A maioria dos participantes protestou pacificamente, mas a extensão dos ataques demonstrou como grupos violentos podem comprometer a segurança pública e transformar uma mobilização legítima em um episódio de destruição coletiva.
A violência não pode ser tratada como consequência inevitável da insatisfação social. Tampouco pode ser relativizada em nome de causas que, por mais legítimas que sejam, não autorizam a destruição do patrimônio público e privado.
Há uma diferença essencial entre exigir mudanças e destruir aquilo que pertence à sociedade.
Uma geração insatisfeita, mas diante de problemas que exigem mais do que indignação
Uma das características mais marcantes das atuais manifestações é a presença de adolescentes e jovens adultos. Muitos pertencem à chamada Geração Z, convencionalmente identificada como aquela nascida entre 1997 e 2012, abrangendo atualmente pessoas de aproximadamente 14 a 29 anos.


Na França, os protestos começaram com estudantes do ensino médio preocupados com a falta de professores, as condições das escolas e as perspectivas de futuro. Posteriormente, incorporaram reivindicações relacionadas ao custo de vida, ao emprego e à deterioração dos serviços públicos.
É perfeitamente compreensível que uma geração manifeste preocupação com seu futuro. Entretanto, existe uma diferença entre compreender as dificuldades econômicas e possuir uma visão completa dos mecanismos que as produzem.
Adolescentes de 14, 15 ou 16 anos podem perceber diretamente os efeitos das dificuldades financeiras sobre suas famílias. Isso não significa, porém, que necessariamente disponham de experiência ou conhecimento suficientes para compreender toda a complexidade das políticas monetárias, dos mercados energéticos, do endividamento público e das relações econômicas internacionais.
Essa observação não pretende desqualificar os jovens. Pelo contrário, reforça a responsabilidade das instituições educacionais e políticas de oferecer informação, formação cívica e instrumentos de análise, em vez de permitir que a indignação seja substituída por palavras de ordem simplificadas.
O problema torna-se especialmente grave quando a mobilização deixa de buscar soluções e passa a servir de oportunidade para vandalismo, confrontos e saques.
As manifestações europeias de outras décadas também conheceram episódios violentos. A diferença que merece atenção hoje está na velocidade com que imagens de destruição circulam nas redes sociais e podem transformar comportamentos criminosos em demonstrações de prestígio dentro de determinados grupos.
Quando jovens passam a exibir nas plataformas digitais produtos roubados ou ataques contra policiais como se fossem conquistas pessoais, o debate deixa de ser exclusivamente econômico. Passa a envolver educação, responsabilidade, respeito à lei e os limites da tolerância institucional.

A crise econômica é real, mas não explica tudo
Seria igualmente equivocado ignorar as dificuldades concretas enfrentadas pelas famílias europeias.
Segundo dados do Eurostat analisados pela Euronews, os preços dos alimentos e das bebidas não alcoólicas na União Europeia aumentaram aproximadamente 34% entre agosto de 2021 e agosto de 2026.
A crise energética agravou esse cenário. O conflito envolvendo Estados Unidos e Irã provocou novas pressões sobre os mercados internacionais, elevando os custos de transporte, produção e abastecimento.
Em Portugal, os preços dos imóveis aumentaram cerca de 124% entre 2015 e 2024. Na França, a Comissão Europeia projeta crescimento econômico de apenas 0,8% em 2026, acompanhado de uma dívida pública equivalente a aproximadamente 118% do Produto Interno Bruto.
São indicadores que ajudam a compreender o descontentamento social.
Entretanto, reconhecer a gravidade da situação econômica não significa aceitar que qualquer forma de reação seja legítima.
O comerciante que encontra sua loja destruída não é responsável pelas decisões monetárias do Banco Central Europeu. O trabalhador que perde seu emprego porque uma empresa foi saqueada não é responsável pelas políticas energéticas de Bruxelas. E o contribuinte que financia a reconstrução de edifícios públicos incendiados acaba pagando novamente por uma crise da qual já era vítima.
Essa contradição deveria ocupar um espaço central no debate europeu.
A Polônia e as diferentes visões de Europa


Enquanto vários países enfrentam crescente instabilidade social, a Polônia oferece um exemplo interessante das diferenças políticas existentes dentro da própria União Europeia.
Varsóvia tem defendido uma postura mais rigorosa em matéria de segurança das fronteiras, controle migratório e soberania nacional. Em setembro, durante uma reunião internacional em Munique, representantes do governo polonês sustentaram que as atuais regras europeias de migração não são suficientes para responder às ameaças contemporâneas.
A posição polonesa tem uma característica particularmente relevante: a defesa de políticas migratórias mais restritivas não se limita à oposição conservadora. O próprio governo do primeiro-ministro Donald Tusk, de orientação pró-europeia, adotou medidas severas na fronteira com Belarus, justificando-as pela necessidade de enfrentar pressões migratórias utilizadas como instrumento de desestabilização.
O debate é controverso. Organizações de direitos humanos questionam a compatibilidade de determinadas restrições com as obrigações internacionais de proteção aos refugiados.
Ainda assim, o caso demonstra que segurança, controle territorial e autoridade institucional não são preocupações exclusivas de uma corrente ideológica.
A Polônia também apresenta indicadores econômicos que contrastam com os de algumas das maiores economias ocidentais. A Comissão Europeia projeta crescimento de 3,5% para o país em 2026, diante dos 0,8% previstos para a França. A taxa de desemprego polonesa é estimada em aproximadamente 3,1%, embora o país também enfrente inflação, pressões fiscais e um déficit público elevado.
Não seria correto atribuir esses resultados exclusivamente a uma orientação política. A estrutura econômica, os investimentos europeus, a indústria e as condições específicas de cada país exercem influência decisiva.
O contraste, entretanto, evidencia uma questão fundamental: pertencer à União Europeia não significa necessariamente adotar a mesma visão sobre imigração, segurança, desenvolvimento econômico ou exercício da autoridade estatal.
E talvez essa diversidade seja uma das questões mais importantes para o futuro do bloco.
Uma União Europeia diante de suas próprias contradições
Durante muitos anos, a integração europeia foi apresentada como um projeto capaz de combinar prosperidade econômica, liberdade de circulação, estabilidade política e proteção social.
Hoje, esse equilíbrio enfrenta dificuldades crescentes.
A União Europeia precisa conciliar políticas climáticas com competitividade industrial, compromissos geopolíticos com segurança energética, solidariedade migratória com controle das fronteiras e responsabilidade fiscal com a manutenção de serviços públicos cada vez mais caros.
Esses objetivos não são necessariamente incompatíveis. Entretanto, exigem prioridades claras, capacidade de execução e, sobretudo, legitimidade democrática.
O crescimento das forças conservadoras e nacionalistas em diferentes países reflete, em parte, a percepção de que as instituições tradicionais perderam a capacidade de responder às preocupações cotidianas de uma parcela significativa da população.
A segurança pública, a imigração, o custo da energia, a proteção da indústria e a preservação do poder de compra deixaram de ser questões secundárias. Tornaram-se elementos centrais da discussão sobre o futuro europeu.
É nesse contexto que uma visão política mais próxima do centro-direita encontra espaço para defender maior responsabilidade fiscal, valorização do trabalho, proteção da propriedade privada, segurança jurídica e aplicação efetiva das leis.
Esses princípios, naturalmente, não pertencem exclusivamente a uma corrente política. Mas representam prioridades que precisam voltar ao centro do debate público.
O desafio está em defendê-los sem abandonar as liberdades democráticas nem transformar problemas sociais complexos em confrontos ideológicos permanentes.
A liberdade de protestar não pode significar liberdade para destruir
Talvez a questão mais preocupante não seja apenas o número de manifestações, mas a crescente dificuldade de distinguir, no debate público, a defesa legítima de direitos da tolerância diante de atos criminosos.
Uma democracia sólida deve proteger integralmente o direito de manifestação pacífica. Ao mesmo tempo, precisa garantir que esse direito não seja utilizado como cobertura para agressões, incêndios, roubos e depredações.
Historicamente, movimentos sociais importantes conseguiram mobilizar grandes parcelas da população em torno de reivindicações concretas. Grupos violentos também estiveram presentes em diferentes períodos, mas isso jamais deveria servir de justificativa para normalizar a destruição.
Os acontecimentos recentes não permitem afirmar que a maioria dos manifestantes europeus seja violenta. Permitem, porém, reconhecer que a atuação de grupos relativamente menores pode produzir consequências desproporcionais e comprometer a legitimidade de movimentos muito mais amplos.
A dimensão dos danos materiais, o número de policiais feridos e os prejuízos impostos a milhares de comerciantes revelam a necessidade de uma resposta institucional consistente.
Não se trata de escolher entre liberdade e segurança.
Trata-se de compreender que uma depende da outra.
A Europa precisa recuperar sua capacidade de oferecer perspectivas econômicas às novas gerações, preservar a competitividade de suas empresas e enfrentar os desafios geopolíticos com maior clareza estratégica.
Mas também precisa reafirmar um princípio elementar: o descontentamento social não suspende o Estado de Direito.
A União Europeia nasceu da convicção de que a cooperação, as instituições e a estabilidade poderiam superar os conflitos que marcaram sua história.
Se pretende preservar esse legado, não poderá limitar-se a administrar crises sucessivas ou responder às tensões sociais com declarações de circunstância.
Precisará demonstrar que democracia também significa responsabilidade, que liberdade exige respeito às leis e que progresso econômico não pode existir sem segurança e confiança institucional.
O futuro da Europa não será determinado apenas por sua capacidade de ouvir quem protesta, mas também por sua determinação em proteger quem trabalha, produz, investe e respeita as regras da convivência democrática.
Por: Aline Marques Ephrikian - Editora e Colunista/Comunicação e Mídia