A possibilidade de atuação do fenômeno El Niño nos próximos meses voltou a preocupar especialistas por causa dos impactos que ele pode provocar sobre o clima e a economia da Bahia. A expectativa é de temperaturas mais elevadas, redução das chuvas em parte do estado e reflexos diretos sobre a produção agropecuária, o que pode resultar em alimentos mais caros para a população.
As previsões apontam que os efeitos tendem a ganhar força durante a segunda metade do inverno. Em regiões do semiárido, o cenário pode ser marcado pelo agravamento da estiagem, aumento do risco de queimadas e dificuldades para agricultores e pecuaristas. Já nas áreas litorâneas, as alterações climáticas costumam ocorrer de forma menos intensa, embora também possam afetar o equilíbrio dos ecossistemas.
Por reunir biomas como Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Restinga e Manguezais, a Bahia apresenta respostas diferentes às mudanças no clima. Enquanto algumas áreas sofrem com a escassez de água, outras registram alterações na vegetação, no ciclo de reprodução de animais e na dinâmica dos ambientes naturais.
Agricultura sob pressão
Especialistas alertam que a irregularidade das chuvas e o aumento das temperaturas podem comprometer o desempenho das lavouras, principalmente daquelas mais sensíveis ao estresse hídrico. Além da redução da produtividade, produtores podem enfrentar aumento nas despesas com irrigação, transporte, manejo e recuperação de perdas.
Segundo o economista Denilson Lima, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), esse cenário tende a diminuir a oferta de alimentos e, consequentemente, pressionar os preços pagos pelos consumidores.
O Oeste baiano, considerado a principal região produtora de grãos do estado, está entre os locais que mais preocupam. Um eventual atraso no período chuvoso pode comprometer o calendário de plantio da soja e do milho, além de elevar os custos da atividade agrícola. A pecuária também pode ser afetada pela redução das pastagens e pela menor disponibilidade de água para os rebanhos.
Produtos que podem registrar aumento
Caso os impactos previstos se confirmem, alguns alimentos deverão sentir primeiro os reflexos das mudanças climáticas. Entre eles estão hortaliças, verduras, frutas, leite, carnes e grãos.
Como as hortaliças possuem ciclo de produção mais curto e dependem diretamente das condições climáticas, costumam ser as primeiras a apresentar oscilações de preço. Em seguida, o aumento dos custos pode atingir outros segmentos da cadeia produtiva.
A duração desses reajustes dependerá da intensidade do El Niño. Se os prejuízos forem pontuais, a oferta tende a se recuperar rapidamente. Entretanto, perdas sucessivas de safra ou dificuldades prolongadas na produção agropecuária podem manter os preços elevados por vários meses.
Estratégias para reduzir os impactos
Entre as medidas apontadas por especialistas para minimizar os prejuízos estão o monitoramento constante das condições meteorológicas, o uso racional da água na irrigação, o investimento em variedades agrícolas mais resistentes às condições adversas, a contratação de seguro rural e a ampliação da assistência técnica aos produtores.
Também são consideradas importantes políticas públicas voltadas ao financiamento do setor, melhoria da logística e fortalecimento do abastecimento, reduzindo os efeitos das oscilações na oferta de alimentos.
Eventos climáticos já pesam no orçamento
A economista Ana Georgina, do Dieese, lembra que o aumento dos preços dos alimentos não está relacionado apenas ao El Niño. Nos últimos anos, secas prolongadas, ondas de calor e chuvas intensas em diferentes partes do mundo provocaram perdas agrícolas e influenciaram diretamente o custo de diversos produtos.
Ela cita como exemplos a alta registrada no café, após problemas climáticos em importantes países produtores, e o aumento do preço do azeite de oliva, provocado pelas temperaturas extremas que afetaram plantações na Europa. No Brasil, as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul também continuam gerando reflexos sobre diferentes cadeias produtivas.
Mudanças climáticas exigem resposta global
Especialistas defendem que a redução dos impactos provocados pelos eventos climáticos depende de uma ação conjunta entre governos, setor produtivo e sociedade. A diminuição das emissões de gases de efeito estufa, o combate ao desmatamento, a preservação dos recursos naturais e a expansão das fontes de energia renovável são apontados como medidas essenciais para conter o avanço do aquecimento global.
Embora o Brasil possua uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com forte participação das hidrelétricas e crescimento das energias solar e eólica, pesquisadores afirmam que os desafios ultrapassam as fronteiras nacionais e exigem cooperação internacional para reduzir os efeitos das mudanças climáticas.
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