Quem foi à Lapinha esperando ver o caldeirão político baiano ferver na tradicional celebração do Dois de Julho precisou se contentar com um banho de água fria — literal e metaforicamente. Em pleno ano eleitoral, a caminhada que costuma ser o termômetro máximo das urnas na Bahia entregou um espetáculo surpreendentemente discreto. O tradicional cortejo da Independência, desta vez, funcionou em marcha lenta, revelando um cenário onde as trocas de farpas ficaram restritas e o tom geral foi bem abaixo da fervura tradicional da festa.
O desfile cívico transformou-se em um tabuleiro de xadrez em movimento, onde cada grupo adotou um ritmo e uma estratégia bem definidos. O bloco governista, liderado pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), parecia ter pressa. Apertando o passo, o grupo completou o trajeto mais rápido do que em anos anteriores. No asfalto, Jerônimo manteve o figurino "paz e amor", evitando confrontos diretos e deixando para o ex-governador Rui Costa, pré-candidato ao Senado, o papel de artilheiro nas provocações contra o ex-prefeito ACM Neto (União). No entanto, o maior desfalque do lado governista foi a ausência do presidente Lula; sem o seu principal cabo eleitoral na avenida, o desfile parece ter perdido parte do fôlego e do peso político. Para completar, o PT baiano precisou driblar uma movimentação coordenada de adversários, que espalharam cartazes ligando o senador Jaques Wagner e o secretário de Meio Ambiente, Eduardo Sodré, ao escândalo do Banco Master.
Do outro lado, a oposição preferiu a lentidão estratégica. Avançando devagar da Lapinha ao largo do Pelourinho, o grupo de ACM Neto focou na captação de imagens para as redes sociais e na mobilização de claques. O discurso trouxe as pautas habituais e sem grandes novidades, insistindo nas críticas a projetos como a ponte Salvador-Itaparica — uma pauta que o governo tentou esvaziar ao correr para iniciar marcos de construção antes das proibições da Justiça Eleitoral. A movimentação da oposição também serviu para reposicionar peças: o senador Angelo Coronel (Republicanos) voltou a cumprir o trajeto após anos de ausência, Zé Cocá (PP) estreou no Dois de Julho da capital para marcar território no interior, e João Roma participou de forma mais contida, deixando de lado o bolsonarismo estridente de edições passadas.
No meio do percurso, o céu desabou. A chuva que caiu sobre os ombros de militantes e políticos funcionou como uma metáfora perfeita para o balanço geral do dia: o desempenho eleitoral da festa foi morno. Embora os assessores e correligionários mais entusiasmados tentem vender a ideia de que o clima estava quente, a realidade é que o que se viu foram dois lados de uma mesma moeda, mas com perspectivas distintas de aproveitamento do trajeto. A discrição que marcou este cortejo nem de longe reflete o verdadeiro cenário que se desenha para o futuro breve; o Dois de Julho foi apenas o ensaio geral, e a verdadeira fervura da política baiana deve alcançar sua temperatura máxima na disputa que se inicia para as eleições de outubro.
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